Todos os comentários anteriores
 
 
 
 
 
Café - 02/10/2009

Café

            Sra. Luciana Gonçalves, mais de meio século de vida. Natural de Goiás, região do cerrado, clima e solo impróprios para o cultivo do ‘’ouro verde’’: o café. Mas como todo brasileiro, comenta a Sra. Luciana, o goiano também se delicia com esta bebida aromática. O café não falta no seu cotidiano.
            Na década de 60, lembra a Sra. Luciana, o café era comercializado no estado pelos paulistas, em grãos com casca, de recente coleta. Os frutos, em esteiras expostos aos raios solares por alguns dias. Tempo que era um recreio para as crianças que se divertiam e se deliciavam com alguns frutos do cafeeiro de casca úmida e avermelhada, amolecida e com um adocicado especial próprio da rubiácea, que se destacavam entre os milhares de tonalidade escura. Após a secagem, o café em forma de um coquinho, descascado manualmente, se transformava em duas sementes e depositadas em sacas de linhagem e armazenamento em um ambiente protegido da umidade e ventilado.
            Para o seu preparo, torrado em pequenas porções numa panela de ferro e socado no pilão. Algumas colheradas desse pó colocadas em um coador de tecido confeccionado pela própria dona de casa, feito uma infusão com água da chaleira, adoçada e em ebulição. O café, quentinho no bule esmaltado, brilhante e decorado com flores de cores diversificadas. Um aroma inconfundível se espalha pelo ar, por todo o ambiente. O café, pronto para ser servido, saboreado. Tomado na refeição matinal, puro, na xícara ou no leite em um copo, acompanhando com pão bolo, biscoito... repetido no lanche vespertino, alternado entre as refeições, uma porção reforçada depois do almoço e do jantar. Mais um gole antes do repouso noturno.
            O fumante nunca dava uma tragada sem primeiro se deliciar de um café, sua bebida predileta. O café e o cigarro considerados uma dupla inseparável pelos amantes do tabagismo daquele tempo.
            Passados alguns anos, chega a Goiás o café já seco e descascado, a torradeira e o moedor. Muita evolução na época. Para as donas de casa, economia de tempo, organização e rapidez para servir a deliciosa bebida. Quem não aprovou a modernidade foram os pequenos que não mais saboreavam o frutinho doce e as meninas mais crescidas que foram escaladas para assumir a função de torração, girar a torradeira por um alongado braço anexado à peça em forma de um globo preso num suporte, sobre a chapa e a chama do fogão a lenha por mais de meia hora. E a moagem do café executada inúmeras vezes ao dia em um moinho sempre ajustado para que o pó ficasse fininho e aumentasse o produto. Muito suor, muita energia das garotas para mover esses equipamentos domésticos que anteriormente o trabalho era executado na panela e no pilão pelos braços paternos, maternos ou de um outro adulto. Como reclamar? Na época, os genitores respeitados, temidos pela extrema autoridade; a obediência, condição única para não levar uma dolorosa surra ou castigo, somando ainda mais a outra obrigação. Os afazeres eram incumbidos a todos os maiores de sete anos. A participação e a boa vontade de todos, era fundamental no desempenho da tarefa designada para atingir um final de dia sem advertência e sem lágrimas. 
            Década se vai. A ciência e a tecnologia surpreendem. O café passa a ser beneficiado em indústria de torrefação, comercializado em pacote de quilograma, pronto para infusão. Ficando para a mulher apenas o trabalho de realizar esta ultima parte. A mocinha, livre da árdua tarefa da torradeira e do moinho.
            O tempo não para. A modernidade trouxe o café solúvel. O pó que possui a propriedade de se dissolver instantaneamente quando adicionado em água ou leite. A garrafa térmica assume o lugar do bule, a cafeteira é inovação na praticidade do seu preparo. O café, hoje, é também industrializado em forma de balas, pratico para manusear na bolsa ao cinema, compras, trabalho ou viagem.
            Num momento, Luciana coloca sobre uma mesa, um volume de uma enciclopédia, parte de sua pequena e preciosa biblioteca, acomodados na estante que compõe os moveis da sala de seu lar. Folheia as páginas. Uma surpresa. Vê uma ilustração e um texto sobre o café. Uma bebida tão saborosa e popular que só naquele instante Luciana descobre sua origem, uma história. Observa a gravura do arbusto da rubiácea, admira seus galhos cobertos e coloridos pelos frutinhos que se confundem com as pequenas e incontáveis folhas, pontilhados por miúdas e belíssimas flores brancas. Maravilha da natureza, como diz a Sra.Luciana, a maioria das pessoas desconhece a planta que nos oferece o fruto: o café, do qual se prepara a bebida número um do brasileiro e consumida em todo o mundo.
            Século 21. Luciana, uma historia de vida em que o café marca presença no seu dia a dia Influência na sua infância, mocidade, como esposa e mãe. O café, motivo de felicidade entre seus familiares, no prazer de receber um amigo, um encontro em um bar no shopping. Café. O sabor que transita no planeta.

Rossidê Rodrigues Machado.