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Escrevendo com Lêda Nova o livro Café. A SAGA DE UM HERÓI. Arte e café! DO PLANALTO DE VITÓRIA DA CONQUISTA PARA O MUNDO
A “Panha” e os Fantasmas da Fazenda
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13/10/2009

A “Panha” e os Fantasmas da Fazenda

            Emocionante recordar, e reviver como se fosse agora, histórias da minha infância, fragmentos e pedaços meus, tão distantes e ao mesmo tempo muito próximos, parecendo que foi ontem...
            Morávamos no norte de Minas Gerais. Em todas as férias, entretanto íamos para o sul do estado. Eu, Vitor e Elisa — meus pais maravilhosos, companheiros, eternos incentivadores da minha vida e da minha caminhada — e meus queridos irmãos, Lucas e Vitor Júnior. Já que era lá que se localizava a nossa fazenda e as da família de meu pai, com tradição na cafeicultura.
            Que alegria preparar as malas, contando nos dedos as horas que faltavam para se deliciar com os mimos dos avós, as brincadeiras com os primos. Já sentindo o gosto do café quentinho com os pãezinhos saídos na hora do fogão de lenha, os passeios nos cafezais e, ih! Num misto de medo e saudade, de repente ouvindo os passos dos fantasmas do porão da fazenda.
            Porque a fazenda continha todos os elementos mágicos do imaginário infantil, não faltando, obviamente, as imagens fantasiadas, mas para falar a verdade, até enxergadas com os olhos infantis que Deus nos deu, acredite quem quiser! Dos nossos fantasmas.           
            Os espíritos dos escravos que um dia lá trabalharam, não quiseram se afastar da fazenda e ficaram morando no porão, contudo Edinho (que toma conta da propriedade até os dias de hoje) assegurava que a maioria do povo, exceto alguns mais alvoroçados, só saía para passear pelos outros espaços, à noite. E a gente que tomasse cuidado, hem (risos)?
            Em julho participávamos da movimentação da "panha", quer dizer, da colheita de café. Quando ainda tomávamos o café da manhã, pelas janelas da casa-grande, nos deslumbrávamos com o espetáculo colorido das “panhadeiras” com suas matulas, comida que elas acomodavam dentro do embornal, sacola de pano, almoçando no cafezal.  Depois corríamos para ficar olhando, com vontade de estar entre eles, os “camaradas”, pessoas contratadas para trabalhar nas lavouras, todos dentro de caminhões, meio de transporte comum naquela época, apesar de depois substituídos por ônibus ou van.
            Quantas vezes eu fui ao cafezal, com meu pai e Edinho, em cima do trator. Achava o máximo entregar as fichas das balizas, bilhetes equivalentes a uma baliza, medida de sessenta litros de café colhido. Olha que responsabilidade! Ser a portadora do sustento e do dinheiro que as famílias guardavam para passar o ano, comprar o que não tinha dado para tirar do apertado orçamento mensal.
            E na minha casa, a gente já sabia... Viagem, uma compra mais alta, até o brinquedo e a roupa dos nossos sonhos... “Só depois que sair a ‘panha’, meninos”, o pai sempre dizia.
            Certo final de semana, meus pais foram a um casamento na cidade e eu, Vitor Júnior e Lucas ficamos na fazenda. À noite, fomos com Edinho para o barracão onde ficava o secador, que era uma máquina, para nós, imensa! Que levava a noite toda ligada secando o café. O certo é que fomos e não voltamos... Edinho nos contou tantas histórias, inclusas as dos fantasmas do porão, Cruz Credo! Que não tivemos coragem de voltar para casa. Devagarzinho, nos acomodamos e dormimos em cima das sacas do café, com a zoada da máquina e um frio de rachar os ossos, para não dizer do desconforto total. Ah! Mas foi tão extraordinário, prodigioso, sobrenatural!
            No dia seguinte, quando seu Vitor e dona Elisa, nossos pais, chegaram, é claro que eu e meus irmãos estávamos dormindo na cama da casa, debaixo dos cobertores. Ainda bem que os espíritos mais sensatos, enfim, não saíam para passear de dia, porque que ouvimos os seus passos naquela noite de “panha”, ah! Verdade!
            E é por essa memória tão rica e encantadora, que a infância, minha família e o café me proporcionaram, que hoje levo, sempre que eu posso, minha filhinha para passar as férias na nossa fazenda de café, claro que tomando todos os cuidados possíveis para ela não ser importunada pelos passos dos meus fantasmas de menina...

Esta é uma história real, parte integrante do livro Café. A SAGA DE UM HERÓI. Arte e café! DO PLANALTO DE VITÓRIA DA CONQUISTA PARA O MUNDO, vivida e relatada pela psicóloga e empresária Márcia Quadros Ledo, mineira residente em Vitória da Conquista-Bahia.