eitinho com Café
Éramos uma família de dezenove filhos, morando na cidade de Vitória da Conquista, sudoeste da Bahia.
Na minha memória, recordo-me de minha mãe, Ede Teles, “Mainha”, como todos nós a chamamos até hoje, segurando e amamentando um bebê, na sua inerente calma, encantada!
“Painho”, José Capitulino Teles, já se foi para algum espaço e tempo eterno, no entanto ele nos ofertou um legado mágico. Toda manhã, chovesse ou fizesse sol, em todas as estações do ano e em todos os anos antes de adoecer, ele acordava sua “escadinha” de filhos com o nosso leitinho com café.
“Leitinho” é o nome, registrado em cada porção celular da nossa estrutura e da nossa essência, a um ritual de amor inominável, de tão abrangente, de Painho, e depois de Mainha, para com seus dezenove filhos.
De manhã, Painho ia de quarto em quarto, com uma bandeja, lembro que tipo uma assadeira, com vários copos e, no meio, algumas mamadeiras, cheios de café com leite.
— Bom-dia, filho! — ele dizia carinhosamente.
— Benção Painho — a gente respondia.
— Deus te abençoe! Toma o leitinho, filho.
Muitas vezes de olhos fechados, ingeríamos aquela infusão aromática e saborosa e voltávamos a dormir, pois geralmente ele nos presenteava com mais alguns minutos de sono. Para em seguida, nos acordar, um a um, do mesmo jeito carinhoso.
Esse seu rito afetuoso perdurou até ele adoecer, contudo Mainha, de imediato, assumiu a cerimônia diária do leitinho com café, e já vinha ela, todos os dias, nos acordar com a bandeja cheia de copos de café com leite.
Na medida em que cada filho crescia e saía de casa, os copos iam diminuindo também, entretanto a imagem daquela bandeja, tipo assadeira, lotada de copos e mamadeiras de café com leite permaneceu intacta em cada qual.
Hoje, eu, Sandra, um dos dezenove filhos da família Teles, já adulta e morando em Salvador, quando retorno para minha terra natal, Vitória da Conquista, Mainha me presenteia com leitinho na cama e, outra vez, adentro no universo fantástico da criança muito amada que eu fui.
É uma sensação maravilhosa receber e beber agora o mesmo leitinho, sentida em cada nervo, tendão, pedaço de derme e epiderme, no espírito, permeada de flash de amigos e amores, sorrisos e lágrimas, travessuras e brinquedos do meu doce e terno lar de infância. E pelo meu túnel do tempo, novamente sinto meu corpo aquecido e minha alma alimentada.
Desconheço o grau de percepção de meus pais sobre a importância desse gestual amoroso para com todos seus filhos, contudo o leitinho com café criou uma marca em cada um de nós, como uma tatuagem que não se apaga, mas principalmente uma referência de amor, um alicerce que nos faz ir para frente, sempre!
Obrigada, Painho e Mainha! Pelo delicioso e inesquecível leitinho com café!

Esta é uma história real, parte integrante do livro Café. A SAGA DE UM HERÓI. Arte e café! DO PLANALTO DE VITÓRIA DA CONQUISTA PARA O MUNDO, vivida pela família Teles, relatada por um de seus membros, a advogada Sandra Teles, natural de Vitória da Conquista, atualmente residente em Salvador-Bahia. Em anexo, texto publicado em um periódico, de sua irmã, Maria Helena Teles.