A Magia do Café
(À minha saudosa avó Joana, apreciadora e divulgadora das virtudes do café)
Ah! Havia uma relação simbiótica
Entre eles de longa data remota
Quase comunhão de casamento.
Jamais enveredaram jornada
Sem a cúmplice companhia.
Auxílio permanente a passagem
Do dia, da hora, de cada segundo.
No decorrer do dia, entre uma e outra tarefa
A garrafa quentinha aguardava
O melhor momento
Para saciar o prazeroso saboreio
E dissipava a fadiga, a dor, o estresse.
Ela fazia suas orações, logo cedinho
A rede balançava enroscada em seu corpo
Seu pensamento, ave de arribação
Volteava resistente
No retorno de seus fartos dias
Quando ainda criança o conhecera
Em grão, tirado do cafeeiro.
Livre corria nos arrozais a beira do rio
E espantava a tagarelice das lavadeiras
Em suas batalhas diárias de panos.
A água ainda era cristalina
E podia apropriar-se dos pequenos girinos
Filhotes como ela mesma
Em busca de oxigênio.
A sujeira corria por entre a água límpida
E ela não sentia nem bactérias, nem vírus
Sua inocência resplandecia em seus movimentos.
O cheiro do café fresquinho
Rasgou as leves fronteiras do ar
E achegou-se as suas sensíveis narinas.
Maravilhada! Praticamente enfeitiçada
Ela fugiu do transparente tecido das águas
Foi aninhar-se entre as lavadeiras
E a fogueira de lenha
Com o saboroso e escuro líquido.
Cresceu, apaixonou-se, casou-se
Semeou a terra com suas lágrimas
E o sangue com que pariu seus filhos.
Seu querido e inseparável café
Escuro, moreno, amargo às vezes
Quase sempre tão doce
Em seus contatos freqüentes.
Fiel parceiro na sobrevivência
Acompanhou-a no Planalto
De Vitória da Conquista
Entre as magníficas e belas flores
E os cantos das aves silvestres
A olhar a imensa paisagem
De incansáveis trabalhadores
Em sua labuta diária nos cafezais.
Nessa viagem sem fronteiras
Retoma seu apego outra vez a existência.
O balé da rede agora é lento
O galo canta mais uma hora
O café a chama de volta ao seu novo tempo
É o momento de mais um gostoso gole.
Sente-se completa nesse exato instante
Alcançou a plenitude dos anos com muita fé
E a eternidade, ao deleitar-se com o sabor
De um gole revigorante do mais puro café quente.
Jania Souza