
O dilema Cedo ou tarde? Tal qual Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Sugere povoar o rol das incertezas humanas, desde que o homem é homem e o bicho é bicho, até porque transita no terreno escorregadio do tempo.
Ainda dá tempo? Não é muito tarde? Sem dúvida foram indagações que perpassaram minha mente no momento em que comecei a escrever. Ainda não é cedo para tanto? Apesar de a palavra ter exercido desde a mais tenra meninice um fascínio sobre mim, enquanto eu ia à toa, mas continuadamente ao encalço do verbo, oração.
Já que ingressei no serviço público federal com pouco mais de dezoito anos também galguei cedo a aposentadoria, a partir da qual, com cerca de quarenta e seis anos, me atrevi a rabiscar letras em papel de produção literária.
Na busca da compreensão do universo quase impenetrável da psique.
E por intermédio da expressão desembaraçar o meu espanto diante da insanidade e lucidez, amor e ódio, mal, bem, mau e bom da vida do dia-a-dia.
Porventura porquanto o que tem de ser, algum dia vai ser! Num desses dias eu estava com a minha amiga Carminha, numa feira de livros em Salvador, quando ela pegou do chão um folheto de concurso de contos e me entregou dizendo Tome! Isto é seu. Você vai ser escritora! Um porta-voz do anjo sinalizador? Pois! Muito obrigada amiga! Não é que a profecia se realizou? Fui escrevendo e mandando para os concursos e na medida em que os manuscritos eram agraciados eu escrevia mais e mais, adorando fazer.
E contos, crônicas e ensaios foram brotando de um espaço impalpável, talvez uma porção de mim acessada tão-somente pela arte, porém certamente um dom recebido de Deus, sobretudo dado que acalenta e aquece minha alma e me torna mais eu mesma. Textos na maioria ambíguos e com finais abertos, induzindo o leitor a refletir e encerrar a trama, entretanto sem censura, meias-verdades, simulação.
O primeiro e o segundo livros nasceram, o terceiro está em gestação. Continuamente aprendendo, num treinamento incessante madrugadas adentro e afora, fazendo, consertando, modelando até encontrar a palavra mais adequada, o ritmo e a melodia, cada verbo como se fosse o primeiro, último rebento do sagrado ventre!
Seguramente setenta por cento transpiração por trinta por cento inspiração, em toda hipótese me envergando diante da responsabilidade de formador de opinião que o escritor decerto é.
Na convicção de que não foi e jamais será tarde ou cedo (afinal o tempo é uma ilusão!) para iniciar, continuar e especialmente recomeçar e transformar.
Dificuldades e barreiras? Ah! Sim. Muitas pedras no caminho! Tiradas uma a uma e jogadas ao vento, quando possível. Tantas outras deixadas no mesmo lugar, quem sabe o futuro as leva embora? Choros e risos, vitórias e derrotas, perdas, ganhos, perplexidades sem fim.
São as peças que compõem a inevitabilidade da edição dualista da vida! Fazer o quê? Só que minha provisão de sonhos ainda está bem abastecida e o caminho é seguir.
Dois passos para frente, um ou três para trás, não importa, ziguezagueando, cambaleando, guinada para cima, céus! Inferno, baixio do mar! Sem garantias, exceto a de não existir quaisquer certezas, verso em prosa, prosa em verso, entoando canção e rebelião, explodindo coração.
Uma vez que o bicho que mais me desperta interesse é o humano, deixo para a bicharada resolver a equação de quem afinal nasceu antes, se o ovo ou a galinha, a despeito de cá com meus botões eu desconfiar que foi o ovo!
Idéia que ninguém precisa compartilhar comigo, visto que sou possuída da loucura de quem faz arte, brinca com as palavras, se aproveita da artimanha da licença poética para contar segredos, dizer do proibido, inominável, irrevelável, feio, não obstante o belo ser eternamente troféu!
Visão de mundo sem obrigação de aceitação, pelo contrário, pelo simplório motivo de que sou capturada pelo desvario que gera pasmo e polêmica. Transgride e excita revolução. Inventa histórias, encena amor e desamor, príncipe e sapo. Desconstrói para depois refazer, cair e levantar, provocar aplausos e desagrados, vaias, rebeldia!
Palavra! Não estou mentindo. Você é a minha rota, bússola, pai-nosso, ave-maria. Possibilidade infinita de criação. Vestida do brilho das estrelas, me norteia, direita, esquerda, volver! Quando perdida entre tantos eus desencontrados, antagônicos e desconhecidos que eu sou! Faz o contato e aproxima os laços de fita em mim.
Tudo tão só a fim de que cimento se faça flor, remate das peripécias de gente, efetivamente recomeçando e transformando por derradeiro, chute em gol!

Crônica laureada com o prêmio XXVII Concurso Internacional Literário, em março deste ano (publicado na edição de 23 de abril de 2009, Coluna Vida em Crônica, site Ebala)