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O nome - 16/06/2009

            No lugarejo da minha antiga residência, um dos maiores valores do cidadão sempre foi o nome, bem a ser preservado do nascimento à morte, escolhido a capricho pelos pais e zelado pelas instituições.
            De minha parte eu acatava completamente esse ditame e não hesitava, além disso, em invocar o nome dos santos. Iria lá me arriscar a perder minha identidade?
            O meu nome? Ah! Gui para os íntimos. Guilhermino dos Anjos na escrita de documentos, sujeito alfabetizado e escolarizado. Nordestino, sim senhores!
            Pois! No lugar lá onde eu morava o ar consistia num bafo queimante de um mormaço igual a fogo que subia do solo, pelando, e se misturava, no alto, às nuvens pesadas. A população suava em bica ao mesmo tempo em que uma camada branca pegajosa colava ao corpo, entrava manhã e saía noite.
            Astrogilda — a patroa, minha santinha, meu adorado cônjuge — não sossegava o facho dentro de casa, perambulando pelas ruas sem cessar, senão seu juízo fritaria com o calor e o sebo a cobriria inteirinha.
            Uma pena Astrogilda ter falecido antes de completar vinte aninhos, sem a oportunidade de festejar o retorno da chuva após dois anos de estiagem.  
            O mesmo doloroso motivo a impediu de conhecer o homem sem nome e verificar seus desmembramentos barulhentos, embora eu não negue que para mim foi até mais tranquilo, imagine, imagine a cena meus senhores! O suplício da dúvida de minha santinha ter endoidecido, naquele surto coletivo, pelo nome ou pelo homem afinal declarado oficialmente morto. Desconfiança capaz de despirocar qualquer marido retado, Santa Filomena!          
            Perturbado para valer eu fiquei, no entanto foi na morte de propósito de Astrogilda, nas quarenta e oito horas imediatas à minha aposentadoria compulsória, sem alumiar a causa mortis! Somente jurou, na véspera, que eu iria ver com quantos paus se fazia uma canoa — de repente enciumada já que eu soletrara o nome de uma rapariga que dançava forró na festa de São João — porquanto naquele sertão homem com H precisava ter lábia afiada para toda fêmea bonita, sob pena de ser taxado de boiola pela boca do povo.            
            Nem o nome da zinha, objeto do parangolé conjugal, eu gravei. O que não consegui esquecer foi o meio sorriso de canto de boca da minha santinha esticada naquele malvado caixão.
            — Tá vendo seu safado? Falou pra outra? Agora cê vai ficar só!
            Que praga a de minha patroa, São Peregrino! Não achei outra mulher decente para dormir comigo no barracão.
            De forma que a solução foi prestar atenção na vida alheia.
            Nisso dei de frente com a filha do padeiro indo pelo passeio.
             — Como vai dona Bernadete? 
            — Com pressa, do contrário eu não pego a missa das cinco da matina. Mas o meu nome é Gertrudes. Bernadete morreu há seis anos e  vosmecê continua me trocando pela mana. O nome de vosmecê eu não erro. Certo, seu Guilhermino Salvador da Pátria?
            Todos os Santos! Há pouco tinha dado quatro horas da madrugada e a igreja era adiante. Enquanto isso dona Bernadete, ih, dona Gertrudes, não desejava passar pelo perigo de perder a fila. Fila? Que fila? Eu não entendia. A fila da missa, ora! Missa tinha fila, São Tomé?
            — De uns tempos para cá a mulherada não falta a primeira missa.
            — Mesmo dona Bernadete?
            — Vá pro diabo que o carregue, seu Guilhermino Salvador da Pátria!
            Oxente! Dona Gertrudes enlouqueceu? Estaria em vias de ter uma crise de histerismo? Eu não tinha noção, afora que o padre resolvera enfileirar para não haver mais tapa e xingamento. Perpétuo Socorro!
            Aí eu corri atrás. Fui! O sino da igreja bateu cinco vezes, a porta abriu e eu esperei o mulherio entrar para missa. Qual! Em vez disso as mulheres saíram disparatadas pela rua da direita, a seguir um vulto na frente. Um ladrão? Cachorro danado? Santa Luzia! Aonde! Empurrei dali, um pouco acolá, espremi, me acotovelei, travessei pelo ajuntamento, enfim chegando ao início do cortejo que achou de parar. Ainda deu para ver os derradeiros pedaços de roupa sendo rasgados pelas esposas do sapateiro e do médico, instante em que o enxame feminino se afastou e formou um círculo, no meio um rapagão bonito, assustado, despido, suado, seboso, parado e em pé no coreto da praça.
            As mulheres, deitando uma multidão de gotas de suor soltando faísca pelos poros e glândulas, um delírio, hipnotizadas, exigiram do homem nu.
            — Diga o seu nome!
            — Valha-me São Bento! É sublime! — endoidou dona Bernadete, hã, dona Gertrudes, o suor fazendo bolinhas, fervendo na pele, Ave-Maria!
            — Um deus! — o mulherame gritou e aplaudiu, besuntando e inundando com um líquido incolor de odor agridoce os pés, dedos, cabeça.
            Não sei qual seria o final da história se o padre não acionasse as forças armadas para prender e isolar o indecente que há algum tempo dera para frequentar a missa das cinco, sem ao menos revelar seu nome. Igualmente ignoro o que aconteceria se ele não ordenasse às donas, a título de emergência municipal, um recolhimento de noventa dias para a penitência de três milhares de pais-nossos e ave-marias.
            O falatório foi que os maridos não acreditaram naquela conversa mole de nome e colocaram suas santinhas de castigo sem permissão de andar pela rua durante um ano, para não falar dos brutamontes que expulsaram as coitadinhas. Dali para frente, e que seja do meu conhecimento, exclusivamente dona Bernadete, ah, São Suplício, digo, dona Gertrudes, se manteve assídua à missa das cinco. A única certeza certeira é que minha santinha, libertária como ela só, não deixaria passar em branco, se viva estivesse. Armaria um auê em nome da liberdade de ir e vir das mulheres. Meu adorado cônjuge exigiria em nome do estado de direito a devolução imediata do homem com ou sem nome.
            Absolutamente sem pretender vender gato por lebre, continuei Gui na vida privada, não encontrei outra boa companheira nem parei de invocar santo, tampouco me ludibriei outra vez com a lenda da lábia do macho.
            Garanto sobretudo que meu nome foi, é e será, pela eternidade, Guilhermino dos Anjos, registrado em RG, CPF e CEP do meu domicílio.
            E apesar das vãs tentativas da oposição de conceder um glamour de início da grande revolução ao incidente do homem nu adorado deus, por baixo do pano a elite se insurgiu e impôs sua versão, oxente! A culpa do explosivo piripaque que por um triz não desonrou a imaculada sociedade de minha terra foi somente do cara que se atreveu a não ter nome, imagine a cena meus senhores! Meu Deus!

Conto laureado como Destaque Nacional, em maio de 2009, no III Concurso Literário Internacional Letras Premiadas — Rio Grande do Sul — (publicado na edição de 16 de junho de 2009, Coluna Vida em Crônica, site Ebala)