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Zoom! - 26/05/2009

            Se bem que eu detestasse cabeleira branca, fui obrigada a parar de usar o “louro-prateado” desde que o produto passou a custar os olhos da cara. O efeito terrível foi me tornar invisível à presença masculina, olhares sedutores viris que sustentaram minha autoestima durante anos a fio. Em contrapartida meus vizinhos não fizeram nenhuma vaquinha para atender minha demanda dolorida, porém aproveitaram o ensejo para rotular de ridícula a minha postura, denegrindo a mim e aos longos fios, abaixo do ombro, dos meus amados cabelos. Estavam pensando o quê? Que a estabilidade financeira outorgava-lhes o direito de me julgar? Pois sim! Imagine se eu não os tratasse a pão de ló! Do que seriam capazes? Pessoas decentes e companheiras, certo! No entanto eu não autorizava senhor ninguém a meter o bedelho em minha vida. De tal maneira que do meu lar eu não abria mão. Negativo! Nunca moraria com Bibi, a filha única, ainda por cima junto com os entulhos de genro e netos. Misturar berço com cama? Jamais! Forçosamente confessava, entretanto que Bibi me fornecia uma mesada vergonhosa e bastante para um quilo de feijão, outro de farinha, uma barra de sabão. Fazer o quê? Eu lá tinha condições de recusar a caridade?
            A mais os remédios, de pressão alta, colesterol, diabetes, osteoporose, tudo por hora da morte, caríssimo! O marido morto deixara uma merreca de pensão, não além para o pão e a manteiga. Se não fosse a prima Zefinha, ah! Se não fosse! Eu já teria virado presunto, de inanição. Todo domingo, encerrada a confraternização familiar da prima, eu catava tudo o que sobrava, bolo, pão, umas colheradas de açúcar. E carregava, junto com meia dúzia de banana, abóbora, bagos de jaca, a gororoba nojenta — resto diário da marmita de Zefinha, que ela guardava em uma caixa de plástico, todo dia tirando e botando no congelador — que virava meu cardápio semanal. Na saída eu garantia que a vida retribuiria à prima o dobro, pelo que ela aclamava “Amém”, não deixando, contudo de destilar seu veneno, recriminando Bibi pela crueldade com uma pobre anciã de setenta anos como eu. Havia necessidade de alardear minha idade? Uma cobra a Zefinha! Fazer o quê? Eu precisava né?
            — Mundo cão!
            — Verdade dona Matildes? — o espelho custava acreditar.
            Se não fosse o meu amigo espelho, o Filó, ah! Se não fosse! Com certeza eu já teria surtado, haja vista que de há muito eu ia de mal a pior, experimentando e sofrendo a penúria que um dia, sabe-se lá a razão, resolveu invadir e se instalar em meu domicílio, de mansinho no início, depois agressivamente e sem pudor, me tirando o chão e o ar. Uma indigência atroz se usurpava do que restava, sem eu ter feito nenhum voto de pobreza, embora cumprisse à risca o de castidade, por certo bem antes do vôo de partida do igualmente malfadado falecido. Gente! E como eu economizava, lutando contra a invasora. Banho quente? Nem que a temperatura beirasse zero grau. Assistir à TV só se o rádio anunciasse uma tragédia nacional ou mundial. Se não fosse o meu fiel espelho, o que seria? Por outro lado se não fossem os abelhudos dos vizinhos bem que eu desligaria todas as lâmpadas e acenderia vela.
            — Sem solução! Uso todos os recursos, mas a invasora sempre vence.
            — Invasora? Cadê? Não vejo mais ninguém aqui. Não daria para dizer, dona Matildes, o nome próprio da bandida? 
             Ora! Um idiota o Filó! Ignorava o perigo de ostentar a dita-cuja? Acionar de mão beijada o mecanismo para a bomba explodir? O máximo permitido? Pensar. Falar não! De-ca-dên-cia! Deu para alcançar o nome feio? Como é? Filó não distinguia a decadência alucinante detentora de livre arbítrio? A que fazia pouco caso de minhas súplicas e rezas? Blasfêmia! Cego? Ela se grudava nas paredes sujas há séculos sem pintura, rachadas, descascadas, ruína! No telhado furado que pingava gotas de temporal exatamente em cima de minha cabeça na cama. Alimentava-se de carne de segunda, chupa molho, congelados meio que estragados, asas e pescoço de galinha, cabeça de peixe. Quer dizer, bicha sem qualidade! Tanto! Que minha propriedade encolhia a olho nu. Ela, a decadência, adorava uma mão atrás e outra na frente, imune ao mofo e umidade pegajosa. Abra a janela, Filó!  Hospedava-se nos lençóis rasgados, toalhas esgarçadas, buracos nas roupas, panos de chão. Nas baratas que saíam do quintal, passeavam no taco que rangia, faziam festa à frente do espelho rachado, não o Filó, mas outro espelho velho, com lente de aumento, zum sedento, aumentando e diminuindo, afastando e aproximando, subtraindo e multiplicando o tamanho, e por mil! Zoom em labirinto à frente, em cima, do lado, em baixo da minha máquina de somar e do arquivo mental de recortes intermitentes que ocupavam à força tijolos e pesadelos. Quebra o espelho, Filó! Não reparava na coisa? No riso sarcástico diante da minha humilhação ao pedir dinheiro emprestado e do recorrente e consequente discurso padrão, desrespeitoso até da bondosa prima Zefinha que não atinava, vã pretensão, se eu mesma cada vez compreendia menos, para onde ia a pensão polpuda do defunto? Quê!  
            Portanto eu escondia tudo a sete chaves e não saía de casa, iria lá permitir que a invasora se empossasse do meu território? Naquele sinistro dia eu fui compelida a me ausentar às pressas para tirar sangue no laboratório do SUS, coagida pela urgência de remeter para o Centro-Oeste o resultado do meu check-up anual. E não deu outra! Retornando, constatei o crime. Alguém, teria sido a decadência? Arrancara o pedaço de madeira do chão da sala e subtraíra da caixa forrada de veludo vermelho as minhas economias acumuladas tintim por tintim a vida toda, a partir do primeiro dia do casamento, há cinquenta e dois anos. Que estupro e violência na minha alma e pele! Um emaranhado de emoções me confundiu. Ódio, tristeza, revolta, medo, impotência ante o invisível e inacessível. Derramei lágrimas de dor. Filó me arremedou, Pêsames!  Na medida em que num relance as moedas e notas zelosamente preservadas, mil-réis, cruzeiro, cruzado, cruzado novo, real, de papel, de metal, passaram pela minha mente. Meus dinheiros! Fora novamente explorada! Pensando o quê? Fazer o quê? Somente entregar a injustiça ao Juízo Final? Ah! Quem se atrevera a me lesar se queimaria na eternidade dos confins do inferno!
            Como não adiantava chorar pelo leite derramado, me aprumei, arrumei outra caixa, coloquei as notas do dinheiro que Bibi havia mandado para pagar o plano de saúde e que eu acabara de sacar do banco, um roubo aqueles planos de saúde! E enterrei no assoalho do quarto. Uma satisfação por um triz não esquecida percorreu meu corpo franzino durante o tempo em que uma obstinação de gigante me impulsionava a prosseguir.
            — Pobre? Eu não serei em tempo algum! — eu jurei.
            — Verdade dona Matildes? — o espelho custava acreditar.
            — Vamos ver! — decadência agourou, menosprezando minha força.
            Fazer o quê? Enquanto eu não exterminava a coisa, o jeito era passar de novo o zoom. Naquele tormento desgovernado cabia lá alguma sanidade?



Conto laureado como Destaque Nacional,
em maio de 2009, no III Concurso Literário
Internacional Letras Premiadas (Rio Grande do Sul.