
Lêda Nova
A escada
de
madeira
em
L
Segunda edição
Romance Policial
------------------------------------------------------------------------------------------E disse Jesus a seus discípulos:
“NÃO HÁ NADA ESCONDIDO
QUE NÃO VENHA A SER DESCOBERTO
OU OCULTO QUE NÃO VENHA
A SER DESCOBERTO
DIGO CONHECIDO”
“O QUE VOCÊS DISSEREM NAS TREVAS
SERÁ OUVIDO
À LUZ DO DIA
E O QUE VOCÊS
SUSSURRAREM AOS OUVIDOS
DENTRO DE CASA
SERÁ PROCLAMADO
DOS TELHADOS”
Evangelho de Lucas
Capítulo 12
Versículos 02 e 03
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PRIMEIRO CAPÍTULO
Sou craque em solucionar pendengas duvidosas e minha verdadeira gratificação vai além do recebimento dos honorários.
Um dos grandes baratos é o espanto do bandido sendo finalmente capturado e algemado, sem a mínima idéia de como eu consegui rastrear os indícios que nem ele sabia ter deixado. Ainda mais se o show final se exibe sob os holofotes ofuscantes das máquinas fotográficas dos paparazzi e emissoras de TV, afinal não sou profissional de porta de xadrez, mas de trânsito livre no mundo das celebridades.
A engrenagem dos mistérios e dos segredos, ciladas e emboscadas, dos jogos e da trapaça, a percepção do labirinto das áreas sombrias e do raciocínio do criminoso, a conexão entre causa e efeito — atrelados ao estado de alerta e à exposição ao perigo — dinamizam meu metabolismo e me fascinam. Tanto e sobremaneira, a ponto de nem cogitar em me aposentar, apesar de eu estar completando o qüinquagésimo primeiro ano de trabalho ininterrupto.
Minha clientela é fiel e atravessa gerações, de avô para pai, para filho, e até para neto. A confiança na qualidade dos serviços prestados pela minha empresa é plena e o prazo para o desvendamento da contenda nunca excede o limite previamente acertado.
De maneira que não sei o que me deu na cabeça quando aceitei pegar aquele esdrúxulo caso da escada de madeira em L. Talvez eu tenha sido convencido pela promessa de salvação de minha alma pelo padre Francisco, ou sentido realmente pena das criancinhas ou, o mais acertado, me deixado seduzir pelo perfume adocicado e pelas curvas estonteantes de dona Iracema.
Um mulherão, Iracema, tchê! E de cara lavada, sem um pingo de maquiagem, chorosa, um tanto quanto maltratada, e com roupa de gosto duvidoso! Que monumento ela se transformaria com um banho de loja e um dia em um spa da alegria! Só não permitiria mudar o seu perfume! Esse não! Era delicioso e me remetia a algo que levei um tempão para atinar, muito embora o esforço.
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O episódio é quase qüinquagenário, contudo me lembro de cada fato, cada palavra, de todos os detalhes, como se tivesse ocorrido ontem.
*****
Era uma vez... uma segunda-feira entediante da primeira quinzena do mês de outubro de 1958.
O escritório era pequeno e o barulhento ventilador de teto brigava com o ar quente e úmido, enquanto eu me debruçava, nos meus viçosos vinte e sete anos, na velha máquina de escrever. Tentava concluir um parecer de adultério conjugal com suspeita de homicídio, de certo deputado desconhecido, contratado pela sua digníssima esposa, que não me pagou um vintém sequer pelo serviço, quando ouvi, pela porta meio aberta, minha secretária pedante atender ao telefone.
— Silva Agência de Investigação Criminal! Fernanda, boa-tarde! — ela anunciou. E perguntou. — Quem desejaria? — falar com o doutor Silva era a expressão que a secretária suprimia, mas que ficava subentendido.
—..........................
— Padre Francisco?
—..........................
— Muito urgentíssimo? Um minuto, por favor! Padre, vou ver se ele está.
Quem? Padre Francisco? Não, não sei de quem se trata, dona Fernanda! Não conheço nenhum Francisco... quanto mais padre... Padre?... Francisco?... E com essa pressa toda?
Quando já ia mandar dona Fernanda dizer que eu tinha saído, a imagem morena e simpática, de cabeleira farta, veio à mente.
Padre Francisco! O vigário da paróquia Nossa Senhora dos Aflitos! Onde minha mãe me pariu, me criei e morei até 1955, o tempo suficiente de ganhar uma graninha e sair do subúrbio. Boa época aquela! Padre Francisco! Faz três anos que a gente não se vê!
— Alô! Padre Francisco? Que surpresa!
— Oi, meu filho. Como anda você, Silva?
— Bueno, padre. E o senhor?
— Mais ou menos. Preciso de um grande favor seu.
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— Às ordens. O senhor manda.
— Dá para você vir aqui na Igreja? Agora! É urgente!
— Mas já, às três horas da tarde, padre? Estou trabalhando!
— Tem de ser! Antes de a polícia saber!
— Polícia? Que conversa é essa? O senhor anda metido com gente vadia, padre?
— Não é possível explicar por telefone. Você vem ou não?
— Hum... espera aí... me deixa pensar.
— Decida rápido, Silva! Segundos podem ser decisivos! Mas não custa recordar das aulas de catecismo e das palavras do nosso Pai: Bem-aventurados os misericordiosos porque eles alcançarão misericórdia.
— O.k., o senhor venceu. Não exatamente pelo preceito religioso, mas pela consideração que tenho pela sua pessoa.
— Neste momento seus motivos são irrelevantes. A demanda é de vida ou de morte! E o importante é você vir logo.
— Poxa! É assim tão grave e premente?
— Claro!
— Ora, pois! Já estou indo, padre Francisco!
— Depressa, Silva! Entre pela porta dos fundos da Igreja. Fico aguardando!
E eu fui. No meu novíssimo e reluzente fusca amarelo-ouro, correndo ...vruuuuum!... vruuuuum!... vruuuuum!... o mais ligeiro que pude.
Cortei os veículos lerdos e irritantes da frente e dos lados, com rapidez... vruuuuum!... vruuuuum!... vruuuuum!... virei para lá, de cá, mais adiante, me perdi, errei o caminho, uma eternidade sem andar por aquelas bandas. Quando já ia indagar onde ficava precisamente o bairro da casa onde eu tinha nascido, ou desistir de vez, achei o bendito acesso, nem reparei no policial fazendo sinal, e passei veloz, até um apito me fazer recobrar a lucidez e parar, derrapando os pneus.
Aí fiquei mais de dez minutos imóvel, recebendo uma repreensão do guarda de trânsito, que não conhecia padre Francisco nem a localização do meu lar de infância, muito menos entendeu patavina da história apressada que eu mal-e-mal sabia contar. Até culminar numa baita multa, se fosse hoje daria um registro de infração na carteira de habilitação, e num chega-pra-lá despachado: Vá embora logo e devagar, antes que eu me arrependa e leve o senhor pro xadrez!
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Contudo e a despeito dos contratempos, cheguei, enfim, na igreja!
****
Seguimos a pé por três vielas de paralelepípedo, o padre achou que chamaria muita atenção ir pela avenida principal, até uma casa grande, de muro alto de pedra, com um portão de entrada no lado direito.
— É do prefeito, padre?
— Não. É da famigerada família Braun Albuquerque.
— Alemã?
— Por parte da esposa.
Um empregado nos conduziu acima, pela escadaria de cimento.
Do alto, dava para ver o verde da grama do jardim, que descia inclinado, no lado esquerdo das escadas.
A casa de dois pavimentos — pintada de amarelo claro — era toda rodeada de varanda, tanto no andar de cima quanto no térreo.
Atravessamos uma pesada porta de madeira e no interior do casarão, o espanto.
— Impressionante! Nada mudou! Ninguém se mexeu! O mesmo de há quase duas horas! — o padre exclamou.
Era estarrecedor até para mim, um perito em investigação criminal, acostumado a lidar com todo tipo de catástrofe, infortúnio e desgraça da raça humana.
O espetáculo à frente me pareceu mórbido, congelado e sem vida.
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Um mezanino escuro.*****
— Ela morreu mesmo, meu senhor? — perguntou uma jovem mulher, que eu não tinha visto ainda e que depois soube se chamar dona Iracema.
— Sim, nenhum sinal de vida! Não carece de se bulir em nada, entretanto, e muito menos pegar no corpo antes da polícia chegar.
— Polícia não! — alertou firme, do meu lado, padre Francisco.
— Não, padre? E a lei? Desconhece? Pois saiba o senhor que a cumplicidade e a omissão são também crimes!
— Venha cá, filho — conciliou o pároco, me conduzindo à biblioteca e me apresentando ao dono da casa.
— Doutor Albuquerque, aqui está o doutor Silva, que lhe falei, excelente agente criminal e um amigo fiel!
— Muito prazer — ele disse para mim.
— A honra é toda minha — retribuí a cortesia.
O entrave era mesmo gigantesco, confidenciou o padre, no tempo em que doutor Albuquerque se reservava calado e circunspecto. Aquela era uma família tradicional e honrada, sobre ela não pairava qualquer suspeita, assídua freqüentadora e fervorosa contribuinte da paróquia Nossa Senhora dos Aflitos, e era preciso invocar a sabedoria divina para ser feito o melhor para todos.
— E a moça? — indaguei.
— Não se sabe nem o sobrenome da coitada! — informou o padre, suspirando. — Ela chegou ontem na casa. Era doméstica.
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— A morte foi matada ou morrida? Mal súbito? Acidente? Suicídio? Homicídio?
— Essa é a questão, meu caro — esclareceu o padre. — O único dado incontroverso é a queda.
— Que queda?
— A queda dela pela escada.
— Não se flagrou nada? Ninguém acusa ninguém?
— Não. É o contrário.
— Não estou compreendendo, padre Francisco. Seja mais claro!
Toda a família presenciara o desenlace. No entanto a senhora Iracema anunciou em alto tom e sem reservas que foi doutor Albuquerque quem empurrou a dita—cuja escada abaixo. Doutor Albuquerque garantiu que foi Iracema. E Patrícia, a guria que chorava ao lado da morta, já confessou que ela era a autora do crime.
— Um horror (arf! arf! arf!)! — concluiu o pároco, lastimando, já com falta de ar.
— Calma, padre, senão a sua asma não deixa o senhor continuar. E qual é a versão das outras crianças, as do andar de cima?
— Oh! Jesus! A maldição se abateu sobre essa família! As infelizes das outras três crianças emudeceram, não respondem. Os olhos perdidos dão a entender que estão em estado de choque! E arrematou o vigário: — E sabe o que mais, Silva?
— Mais? Tem mais? O que, padre?
— Dona Benedita, há dez anos cozinheira da casa, de total confiança, assegura que Dalva, esse era o nome da empregada novata, cometeu suicídio.
— Que confusão inacreditável e absurda! Mil desculpas... Não pretendo ofender... mas essa trama está me cheirando mal!
— E ainda nem acabou! Para completar, seu José, jardineiro da família há sete... sete anos, de caráter inquestionável, nega tudo e dá como certa a hipótese de acidente!
— E nós vamos fazer o que?
— Silva, agora sou eu que lhe peço serenidade! Doutor Albuquerque tem um compadre que é médico—legista do Hospital Geral da comunidade, que se prontificou a dar um
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simplório atestado de óbito e nem fazer referência a esta casa e sua família.
— Sei.
— Inadmissível correr o risco de morte moral dessa sofrida família! Seria sua ruína! Nosso propósito maior é dar um basta nessa maldição!
— Estou assimilando... devagar, não obstante, pároco... ainda assim absorvendo o rumo que se cogita dar.
— Até o veículo apropriado já se encontra a caminho para levar o corpo.
— Se já estava tudo resolvido, padre, para que o senhor me chamou?
— Por causa da consciência, filho! A despeito da verdade não poder se tornar pública, para Deus não deve prevalecer a mentira! Urge você investigar e achar o assassino! Se houver algum!
— Mas padre...
— Se quiser fazer o último reconhecimento da cena do crime, avante, Silva! A ambulância já parou na porta — avisou o meu amigo, padre Francisco.
*****
Todo arrepiado, com um frio nos ossos e na alma, olhei pela segunda e última vez o palco fúnebre.
O ar embaraçava-se densamente condensado. A impressão era de aquele espaço se situar em uma cavidade... em um vácuo... num lugar vazio... fora do tempo e do espaço.
Parado, congelado, morto... mecânico.
Fantasmagórico! Sim, é isso! Tem um quê de mal-assombro!
Esboça algo mais, porém... alguma coisa que se prolonga, se estende, vai além... Maldição? Existe mesmo isso? Tem alguma razão padre Francisco?
Nada tinha se movido.
A mulher morta, de estatura mediana, com um metro e sessenta e três mais ou menos, demonstrava uma idade próxima de vinte a vinte e dois anos e uns cinqüenta e poucos quilos. Os cabelos pretos, de fios grossos, abundantes e cacheados, pendiam na altura dos ombros mulatos descobertos. Trajava um vestido vermelho rodado tomara-que-
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caia. Nos pés descalços e nas mãos, as unhas rubras se destacavam, e o brilho do esmalte indicava terem sido pintadas recentemente. Os olhos se achavam fechados e o rosto não sugeria qualquer emoção, nem mesmo dor. Mas as mãos... abertas e voltadas para cima...
Ah!... As mãos!... Delas nunca me esquecerei!... Afiguram querer expressar alguma coisa, apontar para alguém ou algo... pegar... segurar... desvelar algum segredo.
Ainda por cima o corpo! Meu Deus! O corpo! Ensangüentado, se estende na vertical do chão! De que lugar exato e de que forma ele teria caído, para ficar nessa posição?
Das três crianças metidas entre as grades do corredor acima, só se entreviam suas cabeças endurecidas. De pele alva, cabelos castanhos e olhos nublados, nem dava para distinguir a que sexo pertenciam.
A menina, no chão, sentada no lado direito do corpo caído, com a roupa branca toda salpicada de sangue — Patrícia — deveria ter uns sete, oito, no máximo nove anos. Exibia, contudo, um rosto moreno de bebê, rechonchudo, macio. Os fios do cabelo castanho eram finos e formavam grandes cachos, até o ombro pequeno. A respiração entrecortada supunha falta de ar e seus olhos se escondiam atrás das mãos manchadas de sangue, que ela cruzava à frente do rosto, soluçando.
E quatro gotas de sangue, do lado direito, entre o início da escada e a mulher morta.
Tchê! Quê! Parece-mas-não-é?
Com todos meus sentidos aguçados — um panorama disforme, tal qual uma moldura irregular, deslocada ou porventura incompleta — eu captei.
O quadro delineado do crime não infundia idéia de conjunto... não se fechava.
Falta o que? As partes insurgem isoladas, separadas, não pertencentes ao todo. Há uma ruptura... aonde?... por quê?
Por que quatro gotas de sangue? E não duas, cinco, dez? Alguma relação com as quatro crianças?
Os três guris no corredor de cima aventavam não ter nada a ver com a moça caída nem com a menina abaixo. Por seu turno, Patrícia emergia como não fizesse parte de outra qualquer realidade dali e até Dalva, a doméstica morta, também se assemelhava apartada.
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Apesar disso, a escada! De madeira e em forma de L, se destacava sozinha e imprimia uma representação mental de peça principal e de vida própria e autônoma!!!
Imerso em minhas reflexões, tomei um susto com os gritos de Patrícia.
— Não! Não! Na ã ã ã ã o o o o o o o!!!
A garota buscava impedir, mas os paramédicos levavam, imperturbáveis, numa maca, o corpo de Dalva.
— Não! Não! Na ã ã ã ã o o o o o o o!!!
De vereda surgiu Iracema, que carregou Patrícia para o andar de cima. No caminho também retirou os outros guris do corredor, desaparecendo todos de vista.
Pelo vidro da janela, avistei a maca com o corpo da morta sendo empurrado pela traseira de uma ambulância, cuja porta logo se fechou.
O pessoal entrou, o motorista arrancou, abrupto... vruuuuum... vruuuuum... vruuuuum... e a ambulância se foi.
Restou somente o sangue coagulado no chão de baixo do mezanino: quatro gotas em linha reta, a partir do pé da escada; e uma porção no lugar em que estivera o cadáver.
Meio atordoado com a rapidez da mudança da cena do crime, fui colocado para fora pelo padre Francisco.
— Vamos, filho, todo mundo está muito cansado e precisa descansar. Depois a gente volta.
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Dois dias depois, fui ao Hospital Geral de Nossa Senhora dos Aflitos e vi o registro de entrada, em 10 de outubro de 1958, de uma mulher não identificada, de cor parda, aparentando vinte anos, e que alguém informou se chamar Dalva, vítima de acidente de trânsito, com óbito após os primeiros-socorros.
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Indagando, encontrei uma enfermeira que afiançou ter estado de plantão nesse dia. Ela me relatou que viu a moça sendo levada, às pressas, correndo... vruuuuum! ...vruuuuum!... vruuuuum!... e já entubada, por três paramédicos, nos corredores brancos do hospital... vruuuuum! ...vruuuuum!... vruuuuum!... mas que infelizmente a paciente teve uma parada cardíaca ao adentrar o centro cirúrgico.